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Pegada da Água

Cada “passo” que damos no nosso dia-a-dia permite-nos “avançar” nas nossas rotinas e objectivos, mas representa também um “consumo” de recursos naturais que necessariamente fazem parte da estrutura dos bens e serviços que estão ao nosso dispor. Medir estespassos” em termos ambientais significa contabilizar a nossa “pegada”.

A pegada ecológica deu lugar, recentemente, à pegada do carbono e também à pegada da água. A estratégia de preservação do ambiente passa cada vez mais pela consciencialização do impacte associado ao que consumimos ou aos serviços de que dispomos. E nada mais fácil de entender que um impacte expresso em números, neste caso, no “tamanho” de uma “pegada”.

A água, um bem até agora acessível (à distância de uma torneira) poderá vir a tornar-se um recurso de “luxo” como consequência das inevitáveis alterações climáticas. Ao nível local, a sensibilização antecipada para este potencial problema poderá ser a “chave” para minimizar cenários mais pessimistas quanto à manutenção dos usos de água actuais. A pegada da água pode bem ser um início de um caminho mais positivo…

 



Controlar os usos de água para combater a escassez

 

As mais recentes previsões sobre os impactes associados às alterações climáticas nos países do Mediterrâneo alertam para a eventualidade do aumento de secas e de uma diminuição das disponibilidades hídricas (Fourth Assessment Report “Climate Change 2007”, IPCC). No médio prazo, a questão da falta de água assumirá um carácter de urgência. Esta preocupação é partilhada pela comunidade científica e pela opinião pública informada, que alertam para o uso insustentável da água e os impactes que irreversivelmente afectarão o ambiente e a forma como hoje operam as sociedades. Os especialistas na área admitem mesmo que os conflitos que hoje se desencadeiam na luta pela água não são uma consequência directa da escassez hidrológica de água mas sim devido a práticas de gestão desadequadas. Este conjunto de evidências é, sem dúvida, um sinal de que os países do Sul da Europa, onde se inclui Portugal, deverão estudar novas medidas direccionadas para uma gestão mais eficiente do recurso água.

Neste contexto, é necessário considerar os efeitos das alterações climáticas no planeamento estratégico dos recursos hidrológicos e avaliar os seus impactes directos nos consumos, na manutenção dos recursos e no estado ecológico dos ecossistemas aquáticos. Este objectivo enquadra-se na implementação da Directiva Quadro da Água (DQA, 2000/60/EC) que prevê a definição de medidas para a prevenção e minimização das consequências da seca e da falta de água.


O primeiro passo para lidar com o problema da gestão de água é a compreensão da dinâmica do fenómeno da seca, ou seja, estabelecer um padrão para a distribuição espacio - temporal do fenómeno da seca numa dada região ou bacia hidrográfica. Existem já publicadas, em revistas científicas, novas metodologias e resultados para a caracterização espacio – temporal da seca, recorrendo a índices de precipitação extrema. Para a região Sul de Portugal, estes novos resultados demonstram existir uma tendência para o aumento da homogeneidade espacial da ocorrência de secas. É expectável que, a médio, prazo, os períodos de seca se façam sentir com maior frequência e com uma abrangência espacial maior, em particular na zona Sul de Portugal. Esta região já foi identificada pelo comité das Nações Unidas de Combate à Desertificação como uma área crítica devido, sobretudo, à esperada diminuição da precipitação como consequência das alterações climáticas.


A escassez de água terá um impacte negativo directo na qualidade de vida das populações, nomeadamente, no que respeita às potenciais afectações na disponibilidade de água para consumo. Outros usos de água terão que ser repensados, como seja, a utilização de água para a rega agrícola ou, a outro nível, a rega de jardins e espaços verdes. Para além do problema da escassez, subsistem ainda outros aspectos como a contaminação dos recursos hídricos superficiais e subterrâneos. Importa relembrar que os aquíferos constituem ainda reservas estratégicas de água para consumo embora se encontrem vulneráveis a situações de contaminação por via de usos indevidos do solo (ocupação industrial e agrícola) ou por via da salinização. A recarga dos aquíferos depende, de entre outros factores, dos quantitativos de precipitação. Assim, para além da diminuição do volume de entrada de água nestes grandes reservatórios existe também a necessidade de preservar a qualidade da água armazenada.


Neste contexto, uma primeira abordagem a nível concelhio poderá consistir na inventariação dos usos de água principais assim como estabelecer as suas prioridades que asseguram o abastecimento público de água e satisfazem as necessidades da produção agrícola e/ou industrial. A gestão do uso da água deve igualmente passar pela detecção de “fragilidades” no que respeita à ineficiência do uso.


Uma ferramenta adequada a este objectivo poderá ser o conceito inovador da pegada da água, criado em 2002, pelo Professor Arjen Y. Hoekstra, da Universidade de Delft, na Holanda. Este académico é também o director científico da Water Footprint Network (http://www.waterfootprint.org), uma organização internacional que tem por objectivo divulgar este conceito e as suas aplicações.


A pegada da água e a água virtual, dois conceitos a perceber

A quantificação dos usos de água é normalmente realizada com base nos consumos de água por sector (doméstico, agrícola e industrial), que orientam as estratégias concelhias no que respeita à produção e ao abastecimento de água. A pegada da água vem introduzir uma nova forma de quantificar estes usos na perspectiva de obter um indicador do uso de água relativamente ao que é consumido. Assim, a pegada da água de um indivíduo, de uma indústria, de um concelho ou de um País é definida como o volume total de água que é utilizado para produzir os bens e serviços consumidos pelo indivíduo, indústria, concelho ou País. Este uso de água é quantificado em termos dos volumes de água consumidos (evaporados) e/ou contaminados por unidade de tempo. A pegada da água pode igualmente ser considerada um indicador geográfico uma vez que não se refere apenas a volumes de água consumidos e/ou poluídos mas também à sua localização espacial.

Segundo o Professor Hoekstra, a aplicação deste conceito inovador na identificação de situações de pressão (consumo excessivo ou inadequado) das reservas de água pode contribuir significativamente para a gestão sustentável dos recursos hídricos. Uma outra noção surge directamente ligada a este indicador: o conceito da água virtual. O conteúdo em água virtual de um produto (bem ou serviço) representa o volume de água usado para produzir esse produto, medido tendo em consideração as características do local onde foi produzido. Refere-se à soma dos usos de água nas várias etapas do ciclo de vida do produto. Por outro lado, a água virtual contida num produto pode também ser vista como o volume de água necessário para o produzir localmente. A introdução da palavra “virtual” tem uma explicação óbvia: parte da água que efectivamente é necessária para obter o produto não faz parte da constituição final do mesmo. Importa realçar que o conteúdo real de água é, regra geral, insignificante, quando comparado com o total de água que foi utilizado para a sua produção.


A quantificação do teor em água virtual é particularmente importante se tivermos em consideração o comércio de produtos e serviços entre os diversos países. Em termos físicos, não podemos falar de uma transferência de água…mas em termos da água virtual, esta transacção de bens e serviços é particularmente relevante. Por exemplo, nos países onde a escassez de água é uma realidade permanente, a importação de produtos ou serviços “ricos” em água virtual, poderá ser uma solução para evitar o uso excessivo dos recursos hídricos pouco abundantes. Mais ainda, a “poupança” em água que resulta da importação de produtos com elevado teor em água virtual, permite criar modelos de ordenamento do território que contemplem a produção agrícola de elevada qualidade, que proporcionem mais valias ambientais ou que permitam veicular o anterior custo da água para a melhoria de outros sectores. A um nível superior, o conceito da água virtual aplicado à importação de alimentos pode vir a ser a solução para o problema actual da escassez e insegurança de fornecimento destes bens em países menos desenvolvidos.


O teor de água virtual de um produto pode ser “dividido” em três componentes. A parcela “verde” da água virtual representa o volume de precipitação que foi evaporado no decorrer do processo de fabrico. Esta componente é especialmente importante no caso dos produtos agrícolas, em relação aos quais representa o total de água evaporada dos campos agrícolas durante o período de crescimento das culturas (incluindo a transpiração pelas plantas e outras formas de evaporação). A parcela “azul” da água virtual define o volume de água superficial ou água subterrânea que se evapora durante o processo de fabrico. No caso da agricultura, o teor azul de água é definido como a soma da evaporação da água de irrigação dos campos com a evaporação da água contida nos canais de irrigação e em bacias de armazenamento. No caso da produção industrial e do abastecimento doméstico da água, a parcela azul será o volume de água extraído de fontes superficiais ou subterrâneas e que é evaporado, não voltando a re-integrar o sistema de origem. Por último, a componente cinzenta da água virtual é o volume de água que é poluído durante o processo de fabrico. Este total pode ser quantificado através do cálculo do volume de água necessário para diluir os poluentes descarregados no sistema hídrico durante a produção do produto, para que sejam cumpridos os limites de qualidade ambiental do recurso.

De acordo com estas definições, verifica-se que tanto a componente verde como a azul estão relacionadas com a evaporação. Por sua vez, a parcela cinzenta corresponde ao volume de água poluída. No entanto, todas estas parcelas têm em comum o facto de quantificarem volumes de água “perdidos”, ou seja, água que não pode ser utilizada para outros fins (embora aqui, a água evaporada possa ser reutilizada mais tarde após integração no ciclo hidrológico e a água poluída possa ser descontaminada).
Assim, a quantificação da água virtual (volume de água usada na produção de um bem ou serviço) e contabilização da pegada da água (volume de água usado para produzir um bem ou serviço consumido por um indivíduo ou por uma comunidade) permitem obter os dados necessários para um modelo de gestão sustentável dos recursos hídricos, em particular, nas regiões onde a escassez da água possa vir a ser um problema a médio prazo.


Às contas com a água: somar e subtrair para neutralizar

Conhecer o teor em água virtual e a pegada da água dos bens e serviços que adquirimos é conhecer a quantidade de água necessária para produzir diferentes produtos ou garantir diferentes usos. Uma situação possível de aplicação da combinação destes conceitos é a gestão de uma bacia hidrográfica. Neste território específico distribuem-se vários usos de água, desde o consumo doméstico, à produção agrícola e/ou à actividade industrial. Para satisfazer estes usos, há que contar com a precipitação anual e/ou mensal e a sua distribuição pelo território. Perante um cenário de escassez, cabe ao decisor atribuir um custo a cada uso e, neste processo, é importante distinguir os diferentes usos recorrendo então ao cálculo da água virtual e da pegada da água. Outra utilização relevante da combinação destes conceitos é a escolha do produto cuja produção é mais adequada às condições biofísicas do local.


Mas depois de conhecer a pegada da água, como podemos “neutralizá-la” e/ou compensar os efeitos causados pelo “tamanho” dessa mesma pegada?...Para responder a esta questão prática surge o conceito de “água neutra”, um valor de referência criado para medir o esforço necessário para a minimização do impacte ambiental do uso de água. Para um indivíduo, comunidade ou indústria, atingir a “neutralidade” significa optar pelas seguintes condições (muito semelhantes ao quadro já estabelecido para a redução da pegada do carbono): concretizar todas as medidas ao alcance para reduzir a pegada da água e/ou procurar investir em projectos cujo objectivo é o uso sustentável da água. Por sua vez, os bens ou serviços produzidos podem ser considerados “neutros” quando as externalidades negativas da respectiva pegada da água foram reduzidas ou compensadas pelo investimento em projectos sustentáveis.


“Medir” a pegada para depois agir

Ao nível concelhio, conhecer a pegada da água é um dado importante para a gestão dos recursos hídricos disponíveis, principalmente se a falta de água for um problema a médio prazo. A forma ideal de abordar o problema seria a implementação de um modelo para a criação e avaliação de cenários que conjugassem as consequências da falta de água para satisfazer usos humanos durante um período de seca prolongada e para garantir a qualidade ecológica dos sistemas aquáticos. A criação de um modelo de integração entre os factores climáticos (precipitação), o ciclo hidrológico (incluindo a recarga de aquíferos) e os usos de água existentes requer um trabalho multidisciplinar de carácter científico que, muitas vezes, não está ao alcance das autarquias.

No entanto, é possível criar um conjunto de indicadores que permitam identificar ineficiências nos usos ou sinais de escassez. Outro exercício ao alcance de qualquer um é a utilização da “calculadora” disponível em www.waterfootprint.org. Disponível em duas versões, a “calculadora” permite obter o valor para a pegada da água dependendo do País em que nos encontramos. Para tal precisamos de conhecer o tipo de alimentos consumidos, o consumo doméstico de água e o tipo de produtos que adquirimos. Neste sítio Internet, podemos também ficar a conhecer a pegada da água por País. Assim, fazendo as contas para Portugal obtemos o valor de 2264 metros cúbicos/habitante/por ano, dos quais cinquenta e quatro por cento se referem ao teor de água virtual. Comparando com outros países temos, por exemplo, Espanha com uma pegada de 2325 metros cúbicos/habitante/por ano, a Suécia com 1621 metros cúbicos/habitante/por ano e Angola com 1004 metros cúbicos/habitante/por ano. O valor calculado para os Estados Unidos da América foi de 2483 metros cúbicos/habitante/por ano.


Aqui ficam igualmente alguns valores a não esquecer quanto ao teor em água dos produtos que habitualmente consumimos:
Pegada da água da Maçã: 70 litros / uma maçã
do Bife: 15500 litros / quilograma de bife
do Queijo: 5000 litros / quilograma de queijo
do Pão: 40 litros / fatia de pão branco
do Café: 140 litros / chávena de café
da Batata: 900 litros / quilograma de batata
de Papel: 10 litros / folha de papel A4
da Camisola de Algodão: 2700 litros /camisola

Estes são apenas alguns dados que nos sensibilizam para a importância de conhecer aquilo que consumimos não só pela sua qualidade mas agora também pela sua pegada da água.


Por último, importa destacar a ideia da poupança da água que, mesmo não recorrendo a modelos ou a “pegadas”, pode ser alcançada com a sensibilização das populações e das entidades locais e regionais para o uso eficiente deste recurso. Para além do aumento de eficiência nos sistemas de distribuição de água, cabe às autarquias motivar a aplicação do conceito de sustentabilidade aos projectos (residenciais, turísticos ou industriais) previstos.

Em particular, existe já actualmente um conjunto diversificado de soluções direccionadas para o aproveitamento de água da chuva, para a reutilização de águas residuais tratadas e para o controlo do consumo de água doméstico. Para além de ambientalmente mais adequadas, estas são também medidas para reduzir a factura da água, um bem cujo custo poderá ser proibitivo se não começarmos já a acautelar a sua preservação.

Fontes de Informação
http://www.waterfootprint.org

 


Actualizado em ( Quarta, 15 Abril 2009 22:30 )
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