
É maior, iluminada, acolhedora e energeticamente eficiente. A cozinha moderna reflecte um consumo sustentável e um consumidor mais consciente, apontam as tendências de mercado.
Comer bem e cuidar da saúde são os objectivos principais dos consumidores, de acordo com estudos recentes que apontam que a escassez está na ordem do dia e influencia o futuro da cozinha. A escassez de alimentos, água e terra, bem como as alterações climáticas estão na base da extinção de muitos estilos de vida excessivos, sendo responsáveis pelo nascimento de outros, resultado de uma nova forma (colectiva) de encarar a vida e o que ela representa.
A cozinha tornou-se no novo coração da casa: o local onde se preparam e tomam as refeições é cada vez mais um ponto de encontro e de convívio para a família. Os designers e arquitectos estão atentos às tendências e reproduzem os espaços à medida das necessidades. O tamanho importa. E o conteúdo faz a diferença. Verde não é (apenas) uma cor para aplicar em azulejos ou painéis. Verde é a filosofia que marca a cozinha do futuro, da construção à confecção dos alimentos. É o que concluiu um estudo(*) com base em cerca de 3.000 respostas de donas de casa inglesas e irlandesas. O relatório identifica as necessidades actuais das consumidoras: uma cozinha que combine tecnologia e natureza, na perspectiva de auto-eficiência. Ou seja, a tendência é combinar no mesmo espaço equipamentos que representem maiores poupanças energéticas (e económicas) através da certificação energética classe A, A+ ou A++, e a produção de alimentos orgânicos. O resultado do estudo apresenta a cozinha como a extensão de um jardim. Pequenos vasos de plantas e especiarias reintroduzidos pelos chefs para manter o conceito de fresco e natural reflectem também a nova ideia de auto-suficiência e sustentabilidade da própria cozinha. O consumo local, realmente local, é mais ecológico porque extingue distâncias e custos ambientais associados, e acaba por permitir também ao consumidor controlar a qualidade do produto. São as vantagens atribuídas ao Kitchen Nano, uma alternativa para se ter salsa e alecrim numa cozinha de apartamento, sem sujar as mãos de terra. Esta espécie de frigorífico desenvolvido recentemente pela Hyundai não só armazena alimentos como promove o seu crescimento. Sem fertilizantes nem pesticidas, recorre à hidroponia, uma técnica de cultivo de plantas sem solo. A quantidade de luz, água e nutrientes é controlável, o que nos permite decidir sobre a velocidade do crescimento. O Kitchen Nano funciona ainda como purificador de ar.
Medidas ECOnómicas
Os consumidores estão dispostos a pagar mais por soluções sustentáveis que apresentem um retorno do investimento na factura de água e luz, concluiu um estudo americano conduzido pela Associação Nacional de Proprietários durante o período de recessão, no início do ano 2010.
Em Portugal, a par de um investimento crescente em equipamentos com melhor eficiência energética, a preocupação ecológica também já se reflecte numa maior procura e valorização de torneiras operadas por sensores, lâmpadas accionadas por detectores de movimento, focos com LEDs em vez de halogéneos, painéis solares para o aquecimento de águas (obrigatórios em edifícios novos), ideias verdes que garantem reduções significativas nos consumos de água e electricidade, regista o arquitecto Pedro Andrade de Sousa, da Hexaplano. A escolha do isolamento térmico adequado evita por outro lado perdas de calor no Inverno e ganhos no Verão, reduzindo gastos com ar condicionado e aquecimento.
Quando se fala em luz, a natural é sempre a melhor opção ambiental e economicamente falando. Uma cozinha orientada a Nascente é por isso uma mais-valia. Mas com menos ou mais exposição solar, a revolução energética faz-se todos os dias: Sem estar a trabalhar, uma máquina de café, por exemplo, gasta 4 watts, .
Materiais e qualidade do ar
De um lado, materiais de baixo impacto ambiental, não poluentes e atóxicos. Do outro, materiais que contribuem para aquele que é conhecido como o Síndroma dos Edifícios Doentes, dado os compostos orgânicos voláteis (COVs) que, entre substâncias cancerígenas, afectam a qualidade do ar interior, alerta o Laboratório da Qualidade do Ar Interior.
O ambiente e a saúde votam nos primeiros. E os construtores também estão mais sensíveis aos materiais ‘verdes’ que previnem e reduzem alergias, nomeadamente em crianças, mais expostas aos químicos.
No momento da construção, da remodelação e decoração, o critério sustentável tem vindo a ganhar terreno na cozinha. O bambu, nomeadamente, não só está isento de formaldeído, um gás tóxico comum em alguns materiais, como é uma alternativa renovável, cresce rapidamente e evita o corte indevido de árvores. As madeiras de reflorestamento também integram a lista de boas opções, onde reciclado é palavra-chave.
Este ano, na 26º edição da Casa Cor São Paulo 2010, sob o tema “sua casa, sua vida, mais sustentável e feliz”, o gabinete de arquitetura Whydesign apresentou uma cozinha funcional à base de ideias recicladas. “Atentos às transformações, necessidades e exigências do homem na actualidade”, este grupo de professores arquitectos propõe “espaços que nos façam reflectir, questionar, emocionar”, referem no seu blogue http://whydesignbr.blogspot.com. Neste evento, o objectivo era estimular atitudes sustentáveis, mesmo em ambientes modernos, minimizando o impacto ambiental. Durante dois meses de pesquisa, a equipa recolheu móveis, objectos e materiais na cidade e fez compras em lojas de usados. A criatividade acabou por transformar velho em novo, imprimindo charme através de pormenores como a grande bancada de cozinha, uma complexa colagem de oito tampos de granito abandonados em depósitos, e cuja irregularidade das peças deu estilo ao ambiente. Vidro reciclado e resina de baixo COV é mais um exemplo estético e ambiental. Pedra, metal e outros materiais usados no seu estado bruto também não libertam gases para a atmosfera e tendem a ser menos dispendiosos. A escolha das tintas obedece ao mesmo cuidado: tintas biológicas, à base de água, em vez de tintas com solventes, para diminuir as emissões de gases tóxicos. Passo a passo, nasce uma cozinha simples, criativa e sustentável.
(*) pesquisa desenvolvida em Junho deste ano pela IKEA
Benefícios fiscais “premeiam” eficiência energética
Como forma de incentivar o cumprimento das normas europeias para a eficiência energética foram introduzidos alguns benefícios fiscais para quem dispõe de casas energeticamente mais eficientes. No fundo, trata-se de premiar as boas práticas de construção e qualidade dos imóveis.
Edifícios que sejam certificados nas categorias A ou A+, dão a possibilidade de elevar os montantes de dedução à colecta de IRS nos parâmetros “Juros e amortizações de dívidas” ou “Juros e amortizações de dívidas permanentes contraídas com a aquisição, construção ou beneficiação de imóveis para habitação própria e permanente”.
Em termos do Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI), existem autarquias que por sua iniciativa e devidamente autorizadas para tal, premeiam a eficiência energética dos edifícios que pertencem à sua área geográfica através de reduções no valor do imposto a pagar.



