
O aparecimento de novos projectos na orla costeira, nomeadamente, os relacionados com a criação de estruturas que maximizem o aproveitamento do mar, tem motivado a necessidade de adequar os estudos que habitualmente são realizados para enquadrar, ambiental e tecnicamente, projectos com estas características. Neste sentido, foi recentemente proposta uma nova abordagem que tem por objectivo melhorar os conteúdos dos factores Socioeconomia e Morfologia e Dinâmica Costeira, exigidos no âmbito da Avaliação de Impactes Ambientais de projectos para a orla costeira. Para a Socioeconomia, foi proposta a integração da componente da prática do surf na perspectiva das mais-valias económicas associadas a este desporto quer ao nível local como também nacional. Já para a Morfologia e Dinâmica Costeira, as propostas são mais técnicas e direccionadas para a integração de parâmetros que quantifiquem a qualidade das ondas e das correntes. Este último aspecto é particularmente relevante uma vez que está associado quer ao transporte de sedimentos (erosão costeira), quer à segurança dos banhistas e utilizadores das praias.
Proteger as ondas, para o surf e para o ambiente
O surf, enquanto desporto e actividade económica, tem apresentado uma evolução positiva em Portugal, o que se reflecte no aumento do número de praticantes de todas as idades e consequentemente no aumento dos lucros e mais valias associadas a este mercado (incluindo actividades diversas como a venda de material desportivo, a criação de escolas ou a angariação de patrocínios para a realização de campeonatos).
No entanto, os benefícios que decorrem da prática do surf são algumas vezes negligenciados em detrimento da construção de obras costeiras (nas quais se incluem, portos, marinas, pontões e centrais de energia de ondas). Apesar da importância da concretização de projectos desta natureza, é certo que, em termos técnicos, não se contabiliza muitas vezes o aspecto da preservação da qualidade da onda. Para além de poder influenciar negativamente as condições para a prática de surf, muitas vezes esta opção técnica tem outros reflexos de cariz ambiental, como seja, a alteração do transporte de sedimentos, que está na origem do fenómeno de erosão costeira. Em Portugal já existem exemplos de projectos cuja construção alterou irremediavelmente as características da costa e da qualidade da onda. O Lugar de Baixo (ilha da Madeira) e Santo Amaro (Oeiras) são talvez os exemplos mais emblemáticos. Assim, um grupo de investigadores do Instituto Superior Técnico, envolvidos na elaboração de projectos de recifes artificiais (ver Jornal Câmaras Verdes de Fevereiro 2009), desenvolveu uma metodologia para contemplar estas questões no âmbito da elaboração dos Estudos de Impacte Ambiental (EIA) para projectos de obras costeiras. As alterações a propor foram direccionadas para os descritores Socioeconomia e Morfologia e Dinâmica Costeira.
O impacto socioeconómico do surf: local e nacional
A perda de ondas para a prática do surf pode ser quantificada em termos do seu impacte económico, que se reflecte em termos nacionais mas, sobretudo, ao nível das comunidades locais. Os exemplos da Ericeira e Peniche são obrigatórios nesta análise: o posicionamento das entidades locais face à importância do surf tem sido uma aposta ganha no desenvolvimento da economia local.
Mundialmente, o mercado do surf representa um volume de negócio calculado em 11 biliões de euros (dados de 2005/2006). Deste valor global, o mercado europeu arrecadou 1.48 biliões de euros dos quais 1.1 biliões de euros estão alocados aos lucros de empresas sediadas na região francesa da Aquitaine.
Em Portugal, o número de surfistas praticantes situa-se entre os cinquenta e os setenta mil (que praticam surf pelo menos uma vez por semana). Os números apontam para um crescimento na prática desta modalidade entre os vinte cinco e os trinta por cento. A motivação para a prática deste desporto tem registado um maior aumento nos últimos dois anos desde que um surfista português (Tiago Pires) conseguiu garantir a sua qualificação no circuito mundial onde apenas 46 surfistas são convidados a participar.
Em termos do impacto económico da indústria do surf existem fundamentalmente dois métodos de análise: os lucros totais das diferentes empresas ligadas ao surf e o custo suportado pelos praticantes da modalidade. Relativamente a este factor, importa salientar que um praticante regular desta modalidade gasta, aproximadamente, dois a três mil euros por ano em equipamento desportivo e em deslocações. Adicionando a este valor os duzentos a quinhentos mil euros de lucro das lojas de equipamento de surf e as receitas provenientes da realização de competições internacionais (que podem facilmente atingir um milhão de euros), chegamos a um valor global de cento e cinquenta a duzentos milhões de euros representativos das mais-valias económicas do surf para Portugal.
Indirectamente, pode juntar-se a este valor os benefícios decorrentes do aumento do turismo relacionado com a modalidade, já notório no Litoral Alentejano mas também na Ericeira e em Peniche. Para 2008, estimou-se a criação de mil a dois mil empregos relacionados com a indústria do surf.
Metodologia para os EIA
Face aos números aqui mencionados, é perceptível a importância de integrar a componente da prática do surf na análise socioeconómica de um EIA para um projecto costeiro. Em termos práticos, a abordagem proposta pela equipa do Instituto Superior Técnico consiste em contemplar aspectos como o número e o nível dos surfistas que utilizam a zona do projecto para a prática da modalidade, o seu local de residência, os meios de transporte utilizados, o número de turistas e praticantes que procuram o surf nesse local, o tipo de alojamento que preferem, as razões pelas quais escolheram esse spot, qual o custo diário da sua estadia, e o número de vezes que praticam a modalidade (por semana, por ano). O inquérito a realizar deverá também contemplar a opinião dos praticantes sobre a realização do projecto em estudo, dando a conhecer a sua funcionalidade, relevância e posicionamento. Ao processamento destes dados, é necessário adicionar toda a informação já referida no ponto anterior que permita quantificar, ao nível local, o impacto económico desta actividade em termos, por exemplo, do número de escolas de surf existentes, número de lojas, entre outros. A este impacte directo associa-se o impacto induzido pelo turismo do surf. Estes resultados deverão também ser enquadrados com dados nacionais relacionados com esta prática desportiva.
No que respeita à Morfologia e Dinâmica Costeira, o principal aspecto a integrar prende-se com a quantificação da qualidade das ondas que, sendo importantes para o surf, podem vir a ser afectadas com a concretização do projecto. Entre os parâmetros a estudar destacam-se a altura das ondas, o seu período e direcção, a sua frequência do surf spot, e também a “idade da onda”. Este factor mede a concentração da energia da onda em cada set que pode ser afectada pela introdução de um novo “objecto” na zona costeira. Outros parâmetros incluem a direcção e velocidade do vento, a temperatura da água, o número de horas de radiação e o ponto onde a onda quebra (peel angle), fundamental para perceber a afectação na qualidade do surf decorrente da construção de um projecto. Também neste contexto, a caracterização das correntes na zona costeira em estudo são fundamentais para perceber o impacto da alocação de uma nova estrutura. Este aspecto importa não só para o surf mas também para o estudo do impacto ambiental relacionado com o transporte costeiro de sedimentos e o fenómeno de erosão costeira.
Fontes de Informação:
• Bicudo P, Horta, A (2009) Integrating Surfing in the Socio-economic and Morphology and Coastal;
• Dynamic Impacts of the Environmental Evaluation of Coastal Projects. Journal of Coastal Research, SI 56 (Proceedings of the 10th International Coastal Symposium), Lisbon, Portugal.



