As más notícias não param de chegar: do aquecimento global para a polémica dos biocombustíveis, das alterações climáticas para a escassez de água como origem de conflitos, faltava adicionar mais um ingrediente: a silenciosa mas galopante perda da biodiversidade à escala global. O que à partida poderia apenas significar uma espécie de insectos a menos, ou algumas herbáceas que nunca seriam conhecidas, este fenómeno poderá causar estragos maiores que os previstos. A extinção de espécies não é mais do que o sinal de que os ecossistemas planetários estão “doentes” e a espécie humana também precisa destes habitats para sobreviver. Aliar o mercado à missão quase impossível de conservar a natureza parece ser a tábua de salvação. Até 2010 deveriam ser colocadas em prática as acções necessárias para travar a fuga da biodiversidade…Será que vamos a tempo?
Biodiversidade em contagem decrescente…até 2010
As actividades antropogénicas estão a provocar a extinção de espécies a um ritmo cem a mil vezes superiores às causas naturais. Segundo os dados da União Mundial para a Conservação da Natureza (IUCN), actualmente, vinte e três por centos dos mamíferos, doze por cento das aves e trinta e um por cento dos anfíbios estão ameaçados de extinção. Estes dados referem-se às quinze mil e quinhentas espécies conhecidas. Para esta organização, na origem deste problema ambiental está a destruição e/ou perturbação dos habitats devido, por exemplo, ao aumento da poluição do ar, solos e água ou mesmo devido às alterações provocadas pelas mudanças climáticas. Modificar as características físicas, químicas e biológicas dos habitats implica quase sempre uma redução no sucesso reprodutor das espécies, provocando directa ou indirectamente um aumento do seu índice de mortalidade.
A pensar neste problema, foi estabelecido um objectivo de parar a perda de biodiversidade até 2010, tendo sido integrado em vários compromissos internacionais. Em cada protocolo assinado sob este lema, há um reconhecimento da rápida degradação dos ecossistemas e dos habitats que deles dependem, do aumento da ameaça de extinção e da necessidade urgente de agir para evitar o pior cenário possível para a biodiversidade do Planeta. Em termos políticos, o que foi estabelecido representa um compromisso global em termos de metas de conservação e não apenas um acordo sobre medidas dispersas e locais, com um âmbito de aplicação limitado. Foi a dezasseis de Junho de 2001 que, sob a presidência europeia da Suécia, os estados membros da União Europeia concordaram numa estratégia comum para o desenvolvimento sustentável envolvendo o limite de 2010 como o objectivo a alcançar em termos da conservação de recursos naturais.
Depois de várias iniciativas ao longo dos anos, foi em 2006 que o então Secretário-Geral das Nações Unidas, Kofi Annan, sugeriu a incorporação da meta 2010 nos “Millenium Development Goals”. Já em 2007, o agora Secretário-Geral Ban Ki-Moon salientou a importância da concretização deste objectivo decretando 2010 como o Ano Internacional da Diversidade Biológica. Para salvar a biodiversidade, existe um conjunto de medidas que precisam ou que já deveriam ter sido colocadas em prática: pelo menos dez por cento de todos os tipos de ecossistemas deverão ser protegidos; as práticas agrícolas não deverão colocar em perigo a sobrevivência das espécies por isso deverá promover-se a diversidade agrícola e reduzir o uso de pesticidas e fertilizantes (o recurso à agricultura biológica pode ser a chave do sucesso); a exploração de espécies piscícolas deverá ser controlada; a expansão urbana deverá cada vez mais ter em consideração a ocupação de espaços naturais procurando uma integração sustentável; as acções de mitigação das alterações climáticas reverterão sempre favoravelmente para a conservação das espécies (incluindo a nossa!); potenciar o desenvolvimento de espécies autóctones evitando a introdução de espécies invasoras. Por último, e talvez a medida mais difícil de implementar, consiste na integração da biodiversidade como um incentivo de mercado, estimulando processos de comércio e de governança ecologicamente mais justos. Mas numa altura em que se fala de crise financeira, esta aposta parece ser inviável pois implica uma mudança na forma como têm sido conduzidos quase todos os processos de negócio…E já estamos em 2009…
Business & Biodiversity
Potenciar a união entre a biodiversidade e a capacidade de gerar negócio, designado por Business & Biodiversity, parece ser missão impossível…Mas desde 1991 que se tentam implementar formas de conciliação entre estes dois mundos aparentemente díspares. E em 2002 foi traduzido para português um manual elaborado pelo EarthWatch Institute, pela IUCN e pelo World Business Council for Sustainable Development, intitulado: “As Empresas e a Biodiversidade, Um Manual de Orientação para Acções Corporativas”. Existe mesmo uma iniciativa da União Europeia intitulada, é claro, Business & Biodiversity, cujo principal objectivo é o incremento do relacionamento entre as empresas e a biodiversidade, permitindo que se dê um contributo significativo para a protecção da biodiversidade e para a prossecução da meta de 2010, de parar a perda de biodiversidade a nível local, nacional, regional e global.
A principal pergunta é mesmo: o que ganham as economias europeias ao apostarem na conservação da biodiversidade? A resposta é aparentemente óbvia: preservar a estrutura e a funcionalidade dos ecossistemas significa garantir a produção dos bens que necessitamos para viver e também para constituir negócios. A sociedade humana depende da vitalidade do ambiente que a rodeia, a qualidade do ar, do solo e da água e também a contribuição de todas as espécies para o equilíbrio natural influencia directamente a qualidade de vida das populações. O fenómeno das alterações climáticas veio também relembrar a nossa fragilidade perante as adversidades naturais…
Outra ligação win-win entre a conservação da natureza e o mundo empresarial prende-se com a estratégia de comunicação e marketing. Com os ideias ecologistas tão em voga, qual é a empresa que não quer associar a sua actividade a um “objectivo verde”? E preservar a biodiversidade é uma mensagem facilmente apreendida pelo público em geral e visível em termos de resultados. A indústria do eco-turismo é um bom exemplo de como é possível gerar lucro através da preservação de espécies e habitats. Este tipo de turismo “amigo do ambiente” apresenta uma expansão da ordem dos vinte a trinta por cento anuais, uma percentagem de sucesso quando comparada com o desempenho de nove por cento do turismo “convencional”.
Outros exemplos são o aumento da quota de mercado dos produtos de agricultura biológica. Ainda associado ao problema das alterações climáticas, o “mercado da biodiversidade” veio também dar uma solução com o sucesso crescente da mitigação das emissões de dióxido de carbono através da conservação e/ou plantação de florestas. Em Portugal, é através do Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade (ICNB) que é possível estabelecer a ponte entre as empresas e a natureza. No contexto da iniciativa europeia Business & Biodiversity procura-se promover, através de acordos voluntários de longa duração, um campo comum para a colaboração entre estes dois sistemas distintos: business e biodiversidade, que favoreça a introdução da biodiversidade nas estratégias e políticas das empresas. Como se trata de parcerias, é necessário que existam voluntários, ou seja, que os acordos estabelecidos sejam ganhadores para ambas as partes e dirigidas core business das empresas, quer àquilo que é fundamental na defesa da biodiversidade.
A iniciativa materializa-se num processo que implica a adesão a um conjunto de princípios a que se segue a adopção de uma metodologia que visa a progressiva integração da biodiversidade na gestão das empresas nos seus vários determinantes. O início da adesão dá-se com a produção de um documento elaborado pela empresa/organização que explicita publicamente a sua história, o seu sector de actividade, a sua política para a biodiversidade e o tipo de acordo que pretende firmar. A formalização da adesão é efectuada através da assinatura do documento (que pode ser designado por compromisso, protocolo ou memorando de entendimento) pelo responsável da empresa/organização aderente e pelo Presidente do ICNB.
Numa intervenção recente (22 de Janeiro deste ano) realizada sobre a iniciativa Business & Biodiversity por uma equipa de investigação do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR) da Universidade do Porto, revelou-se um relatório sobre o tema "Biodiversity and Industry" que permitiu concluir que as empresas aderentes a esta iniciativa inovadora “reconhecem que a conservação da biodiversidade é importante para o seu respectivo negócio; consideram importante identificar e reduzir os impactes da sua actividade na biodiversidade; têm como intenção conservar a biodiversidade; e consideram que as acções em prol da biodiversidade melhoram a sua imagem”. Este relatório foi produzido com dados fornecidos por empresas que já aderiram à causa da biodiversidade. Deste conjunto de entidades fazem parte marcas como o Banco Espírito Santo, a Nova Delta, EDIA - Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva, a EDP, a Secil, a Corticeira Amorim, a CME, o Grupo Soporcel Portucel, os CTT, a EPAL, entre muitas outras organizações e empresas.
Fonte de Informação:
http://portal.icnb.pt/ICNPortal/vPT2007/O+ICNB/Iniciativa+Business+and++Biodiversity/
www.countdown2010.net
www.business-biodiversity.eu



