
Paul Roberts, especialista americano na área da energia e autor do livro best-seller “The End of Oil”, foi um dos oradores convidados da ENERVIDA’11 – Feira e Conferência de Energias Renováveis e Eficiência Energética, que decorreu de 10 a 13 de Fevereiro, em Viseu. Em entrevista ao Câmaras Verdes, aborda o sistema energético do futuro, identifica mitos, distingue bons exemplos e refere que Portugal está no bom (e eficiente) caminho.
Câmaras Verdes: Pode fazer-nos um balanço da sua participação na ENERVIDA’11, mais precisamente na conferência “Economia da Energia e Eficiência Energética”?
Paul Roberts: Nesta conferência, abordei os riscos inerentes a uma economia energeticamente dependente do petróleo. Na minha perspectiva, estes riscos passam pelo perigo do desaparecimento do petróleo, instabilidade geopolítica, manipulação do mercado e danos ambientais. Perante este cenário, é imperativo encontrar novas ideias para a produção de energia no futuro. Porém, defendo também que a transição desta economia baseada em petróleo vai demorar algum tempo, e requererá um planeamento cuidadoso – por isso, precisamos de começar a pensar o mais depressa possível e seriamente sobre como fazer estas mudanças da forma mais correcta. Fiquei satisfeito por ver tanta gente na conferência, e esperançoso por esta mensagem para a mudança estar a difundir-se!
Câmaras Verdes: Que energias renováveis aponta como soluções de futuro?
Paul Roberts: Aqui reside uma grande incerteza. São várias as tecnologias que estão a ser desenvolvidas - desde as solares, eólicas, de hidrogénio, aos biocombustíveis. Porém, não sabemos quais serão as mais efectivas. O nosso futuro sistema energético será provavelmente um portfólio de diferentes combustíveis e tecnologias, cada uma ajustada a um mercado específico ou à geografia. O que se pode afirmar é que essas novas tecnologias deverão ser tecnologias com baixas emissões ou, idealmente, de carbono zero, de forma a contribuírem para combater as alterações climáticas. Devem igualmente permitir aos consumidores terem um grande controlo local sobre a produção de energia. Pode-se ainda dizer que as atitudes dos consumidores e das empresas acerca da energia vão ter que mudar – a noção actual de que a energia (com origem em recursos fósseis) é ilimitada deve caminhar para o entendimento de que é um recurso “não renovável”.
Câmaras Verdes: Actualmente, na sua opinião, quais os grandes mitos à volta da independência energética?
Paul Roberts: Poucos países têm a capacidade de se tornarem independentes da energia. No actual sistema, a maioria dos países depende de um mercado global, ora para se abastecerem de energia, ora para fornecerem e exportarem. Nas próximas quatro ou cinco décadas, o crescimento populacional e o aumento da procura de energia irá fazer com que este mercado global seja ainda mais essencial. Mas, eventualmente, teremos que mudar para um sistema energético mais local e regional, onde as comunidades produzam mais a sua energia a nível local – idealmente até mesmo em casa! Julgo que Portugal oferece várias vantagens nesse sentido. Tal como o resto da Europa, Portugal aplica impostos elevados sobre os combustíveis, o que força os consumidores a prestarem atenção ao consumo de energia, resultando, por exemplo, como tem acontecido, na compra de carros mais pequenos. Portugal tornou-se também um dos maiores promotores de energias alternativas: Companhias como a Martifer estão a desenvolver tecnologia solar e eólica cada vez mais competitiva com a de hidrogénio. Terei curiosidade em saber como estará Portugal daqui a três anos, quando a crise financeira passar e os consumidores e empresas poderem voltar ao seu comportamento energético ‘normal´.
Câmaras Verdes: Como observador de longa data de questões energéticas e políticas, pode dar-nos alguns exemplos de eficiência energética, nomeadamente um país e/ou empresa?
Paul Roberts: Diria que a Califórnia é um bom exemplo, até pela sua dimensão territorial. Após a crise energética dos anos 70, a Califórnia lançou vários programas de eficiência, e desde então tem mantido os seus níveis de consumo de electricidade, ao mesmo tempo que quase duplicou o seu PIB. No caso de uma empresa ou serviço, diria que a ‘vossa’ EDP é um bom exemplo; está neste momento a desenvolver programas para ‘vender’ poupança aos clientes – um negócio que será rentável para a EDP e que poderá ajudar os clientes a tornarem-se mais eficientes.
Câmaras Verdes: Na sequência do seu livro best-seller “The End of Oil” (O Fim do Petróleo), perguntamos-lhe: Para quando a morte anunciada?
Paul Roberts: Se eu soubesse, seria um homem rico! Ninguém sabe ao certo e, além disso, o petróleo nunca esgota, simplesmente torna-se cada vez mais e mais difícil de produzir, ficando desta forma cada vez mais e mais caro. Neste sentido, julgo que já atingimos o Fim do Petróleo Barato. O que eu penso é que devemos encarar um mundo de petróleo mais caro e agir em conformidade.
Câmaras Verdes: E na sua perspectiva, qual deverá ser o papel dos estados, das autarquias e organismos públicos neste plano de acção de eficiência energética?
Paul Roberts: O grande problema de ‘vender’ eficiência energética está no facto de ser muitas vezes difícil, para as empresas, entenderem que podem fazer lucro vendendo menos do seu produto. Então, o estado necessita de criar sistemas de incentivo que encaminhem as empresas neste sentido. Os organismos públicos e os governos também precisam de desenvolver programas para educar os consumidores sobre a necessidade de conservação, e de encorajar os consumidores a consumir menos, provavelmente através de incentivos. (Portugal já faz isto, por exemplo, aplicando taxas sobre o motor dos carros.) Os institutos públicos e os governos devem ainda ajudar a financiar a investigação para novas tecnologias que possam melhorar a eficiência.



