
Câmaras Verdes - Qual tem sido o papel da APEA na promoção da Engenharia do Ambiente em Portugal?
Pedro Santos - Um dos principais objectivos que presidiu à fundação da APEA foi conseguir a criação do Colégio de Engenharia do Ambiente na Ordem dos Engenheiros, consolidando desta forma o reconhecimento do papel destes profissionais na sociedade portuguesa, objectivo atingido há vários anos, e para o qual a APEA teve um papel decisivo. Complementarmente a APEA tem procurado promover desde a sua criação diversos eventos técnico-científicos de reflexão sobre as melhores práticas, o estado da arte e as estratégias e políticas sectoriais na área do ambiente. Desta forma tem procurado promover o que de melhor se faz em Portugal nesta área e destacar a importância das políticas ambientais para o desenvolvimento sustentável de Portugal.
Câmaras Verdes - Que perspectivas existem para a profissão de Engenheiro do Ambiente? Isto é, qual o feedback actual no mercado em termos da empregabilidade de um Engenheiro do Ambiente?
Pedro Santos - A profissão de Engenheiro do Ambiente continua a ser uma profissão de grande futuro uma vez que num contexto de crescente relevância das questões relacionadas com a sustentabilidade, tratam-se sem dúvida de profissionais que, devido à sua formação sólida e interdisciplinar, têm uma capacidade de actuar em inúmeras áreas e de desempenhar diversos tipos de funções. Contudo, o número crescente de Engenheiros do Ambiente que terminam a sua formação universitária tem levado a que exista actualmente um problema de empregabilidade para os licenciados mais recentes. Daí ser necessário que procurem complementar a sua formação de forma a aumentarem a sua versatilidade e empregabilidade. Para além disso, não devem descurar todos os apoios que actualmente existem ao empreendedorismo qualificado pelo que não devem ter receio de assumir riscos e de avançar para a criação de novas empresas nesta área.
Câmaras Verdes - Na perspectiva de um engenheiro do ambiente, como pode ser caracterizada a Qualidade do Ambiente em Portugal?
Pedro Santos - Começo por destacar a área da gestão e tratamento de resíduos, onde a evolução nas últimas décadas tem sido enorme. Desde que foi aprovado em 1995-1996 o primeiro plano estratégico de resíduos urbanos e criado o (já extinto) Instituto dos Resíduos, Portugal teve capacidade para construir e consolidar um conjunto de infra-estruturas que garantiram um grande salto qualitativo. Esta é uma área onde os Engenheiros do Ambiente se podem orgulhar de terem participado numa verdadeira revolução. Noutra área, a da água, o balanço não é, infelizmente, tão positivo, pois ainda há um número injustificado de portugueses sem acesso a serviços tão básicos como o abastecimento de água de qualidade ou o tratamento de águas residuais. E podemos dizer que ainda estamos a dar os primeiros passos rumo a uma gestão verdadeiramente integrada das bacias hidrográficas. Sem pretender ser exaustivo, destaco ainda outras áreas onde continua a ser necessário ver concretizados avanços no que respeita à qualidade do ambiente, como é o caso da qualidade do ar nas principais cidades portuguesas ou o combate às alterações climáticas, onde ainda precisamos de ser capazes de promover medidas de efectiva redução das emissões dos gases com efeito de estufa, nomeadamente no sector dos transportes ou na promoção de políticas de eficiência energética. A terminar não posso deixar de verificar que ainda não está devidamente interiorizado em muitos sectores da sociedade portuguesa o facto de os países mais desenvolvidos serem aqueles que têm a política e legislação ambiental mais exigente. Infelizmente em Portugal ainda está muito instituída a ideia de que em tempo de crise é necessário deixar cair as exigências ambientais para não penalizar as empresas. Considero este raciocínio extremamente perigoso pois uma empresa que seja eco-eficiente é uma empresa que produz mais valor com menos consumo de energia ou de água, pelo que ambiente e economia devem ser entendidos como aspectos que não podem ser dissociados de uma política de desenvolvimento económico sustentável.
Câmaras Verdes - Qual o papel de um Engenheiro do Ambiente na gestão local dos municípios?
Pedro Santos - Os Engenheiros do Ambiente têm tido nos últimos 25 anos um papel cada vez mais relevante na gestão ambiental nos municípios, a começar nos sectores tradicionais de actuação (recolha de resíduos ou abastecimento de água) mas cada vez mais em áreas complementares de actuação como já referi, sejam as políticas de mobilidade sustentável, a melhoria da qualidade do ar nas cidades, a adopção de estratégias locais de combate às alterações climáticas ou as agenda 21 locais. Não tenho dúvidas em afirmar que são profissionais com uma formação que lhes permite ter uma actuação capaz de contribuir para a melhoria da qualidade de vida em muitas cidades e vilas portuguesas.
Câmaras Verdes - Falando agora sobre o Congresso Nacional de Engenharia do Ambiente (CNEA), que balanço é possível fazer das 9 edições já realizadas?
Pedro Santos - O balanço é necessariamente bastante positivo pois ao longo dos anos tem-se constatado a capacidade de promover a reflexão sobre temáticas relevantes e emergentes na área da Engenharia do Ambiente, o que significa que se evitou a estagnação do Congresso. Por outro lado, o CNEA tem permitido, desde a sua criação, divulgar projectos inovadores e de sucesso nas mais diversas áreas, o que só contribui para promover o papel da Engenharia do Ambiente num desenvolvimento sustentável do país. Não temos dúvidas que o CNEA irá continuar a realizar-se nos próximos 20 anos pois os desafios ambientais irão evoluir na sua complexidade e dar origem à exigência de novas respostas e de novos padrões de qualidade ambiental .
Câmaras Verdes - As Tecnologias de Informação e Comunicação aplicadas à Engenharia do Ambiente serão o tema de destaque da edição de 2009. O que levou à escolha deste tema e das ideias a debater neste congresso, quais aquelas que podem ser consideradas de particular interesse para o futuro do Ambiente em Portugal?
Pedro Santos - A integração das TIC nas diversas áreas da Engenharia do Ambiente é sem dúvida um desafio e uma necessidade actual. A progressiva exigência de melhoria da qualidade dos serviços na área do ambiente, quer seja a limpeza urbana, a recolha de resíduos, a distribuição de água ou o controlo da qualidade do ar, exigem cada vez mais a recolha e análise de um conjunto cada vez maior de dados de forma a que as decisões sejam baseadas cada vez mais no conhecimento e não sejam casuísticas e não devidamente suportadas em informação real e fidedigna. Por outro lado, os dados que as TIC nos permitem obter e processar, permitem-nos ter indicadores em tempo real de forma a irmos avaliando a eficácia das medidas e estratégias adoptadas. Não temos dúvidas que o uso adequado das TIC irá dar um contributo cada vez mais relevante na implementação de correctas políticas e estratégias ambientais em Portugal. O X CNEA também procura inovar pois será transmitido on-line, sendo nossa intenção disponibilizar à posteriori todas as apresentações no novo canal de Web-TV da APEA.
Câmaras Verdes - Que importância atribui à criação de uma edição “lusófona”?
Pedro Santos - Esta é uma aposta estratégica da actual Direcção da APEA pois entendemos que um dos actuais desafios das empresas e profissionais portugueses que actuam na área da Engenharia do Ambiente é aproveitar as oportunidades crescentes que surgem nos países lusófonos, fruto do esforço que os respectivos governos estão a fazer no sentido de melhorar a qualidade ambiental de que desfrutam as populações. Há certamente espaço para o desenvolvimento de projectos e investimentos envolvendo parcerias entre empresas portuguesas e dos países lusófonos, e os novos profissionais de Engenharia do Ambiente têm nestes países oportunidades de trabalho que nem sempre surgem em Portugal. Assim sendo, a criação de painéis temáticos no CNEA deste ano que visam apresentar as prioridades da política ambiental dos países lusófonos mas também de projectos envolvendo diversas instituições lusófonas ou projectos empresariais de empresas portuguesas implantadas nos países lusófonos, irão certamente permitir conhecer o que de melhor se está a fazer, mas também partilhar experiências que poderão ser extremamente enriquecedoras.



