
Entrevista ao Professor Tiago Domingos, Coordenador do Projecto Extensity - Sistemas de Gestão Ambiental e de Sustentabilidade na Agricultura Extensiva - Aliar a prática agrícola a benefícios ambientais, económicos e sociais é uma das apostas ganhas pelo Extensity, um projecto pioneiro e uma “lufada de ar fresco” para o sector agrícola, introduzindo uma nova perspectiva baseada na implementação de um sistema de gestão ambiental e de sustentabilidade.
Câmaras Verdes – O que traz de novo o Projecto Extensity para o sector agrícola em Portugal, numa altura em que as perspectivas para este sector económico são reduzidas? E, neste contexto desfavorável, qual a motivação para o desenvolvimento de um Projecto direccionado para a Agricultura?
Tiago Domingos – O projecto “Extensity – Sistemas de Gestão Ambiental e de Sustentabilidade na Agricultura Extensiva” (www.extensity.pt) decorreu de Novembro de 2003 a Fevereiro de 2008, com financiamento do programa LIFE da Comissão Europeia. Congregou, com a coordenação do IST, doze parceiros públicos e privados em sectores ligados à agricultura e ao ambiente. A motivação para o desenvolvimento do projecto surgiu da percepção que a agricultura tem muito para oferecer em termos de soluções para os problemas de sustentabilidade do Planeta, como a minimização das alterações climáticas. Estas potenciais soluções só recentemente começaram a ser exploradas, e podem trazer benefícios muito concretos para questões como a segurança alimentar, as alterações climáticas e os problemas de ordenamento do território e desertificação humana. Acreditamos que estas soluções constituem serviços ambientais e sociais que podem resultar num benefício económico concreto para os agricultores. O que o projecto traz de novo é a sua abordagem à agricultura baseada nos sistemas de gestão ambiental e de sustentabilidade (“Sustainability Management Systems”, SMS), simples e com custos baixos, compreendendo aspectos ambientais, sociais e económicos, com níveis progressivos de exigência.
Câmaras Verdes – Quais as ideias chave do processo?
Tiago Domingos – São identificados e avaliados indicadores de sustentabilidade das explorações agrícolas (ambientais, sociais e económicos), que diagnosticam a sustentabilidade das mesmas e estabelecem metas para a melhoria desta sustentabilidade. As explorações podem ir subindo gradual e voluntariamente no patamar de sustentabilidade, por exemplo através de certificações (como a agricultura biológica e a Norma de Sustentabilidade Garantida, esta última criada pelo Projecto), de Sistemas de Gestão Ambiental (como o EMAS) e de Relatórios de Sustentabilidade, combinando os apoios públicos para as mesmos com a redução de custos e a remuneração dos seus serviços ambientais pelo consumidor. Ou seja, pretende-se que o aumento de sustentabilidade resulte em benefícios económicos concretos. Ao mesmo tempo, as entidades de investigação, como o IST, associam-se, em projectos, com as explorações, para efectuar investigação sobre a sustentabilidade dos processos agrícolas, numa lógica de Análise de Ciclo de Vida (ACV), em que são analisados os impactes ambientais de processos, produtos e serviços numa lógica “do prado ao prato”. A centralidade e acessibilidade da informação a recolher no âmbito do SMS são também muito importantes. Para o efeito, o projecto criou um Sistema de Informação “on line” (o Extensity – Sistema de Informação), implementado pela empresa “Conexa – Tecnologias e Sistemas de Informação”, a partir do qual os agricultores têm acesso a uma ferramenta informática de gestão das explorações agrícolas, sem necessidade de aquisição de nenhum software. Esta ferramenta recolhe e sistematiza toda a informação sobre os indicadores de sustentabilidade da exploração. Está em constante evolução e permite o armazenamento da informação de gestão e a produção automática de informação obrigatória para a obtenção de apoios públicos. O SMS tem progressivamente integrado a informação necessária para os sistemas de gestão múltipla, permitindo ao agricultor trabalhar com informação complexa e variada, a maioria da qual já obrigatória por imposição da Política Agrícola Comum. Junto do consumidor, são efectuados estudos e inquéritos sobre as suas preferências e expectativas, que depois servem para os produtores integrarem esta informação na estratégia de produção e comercialização dos seus produtos.
Câmaras Verdes - Como podemos alcançar a sustentabilidade na relação Ambiente – Agricultura?
Tiago Domingos – Creio que tal só poderá ser feito com uma abordagem integrada, em que a ciência tem um papel integrador fulcral. Em concreto, é muito importante a análise, numa abordagem quantitativa, dos impactes ambientais, económicos e sociais dos processos e produtos agrícolas, recorrendo à integração do conhecimento dado por disciplinas como a termodinâmica, a economia, a engenharia do ambiente, etc. A abordagem da ACV é apenas um exemplo.
Câmaras Verdes – Como podem as autarquias beneficiar da implementação deste Projecto?
Tiago Domingos – As autarquias podem beneficiar do projecto de uma forma mais indirecta. Em concreto, podem funcionar como difusoras da informação do projecto pelas entidades do sector agrícola e agro-industrial dos seus concelhos, e, se forem atingidos os objectivos do projecto, beneficiam da melhoria da qualidade de vida e da fixação de população criada pelas explorações aderentes aos princípios do projecto.
Câmaras Verdes – Existem já “casos de sucesso” associados à realização do ExtEnSity, quais destacaria e porquê?
Tiago Domingos – Destacaria, claramente, o efeito que o projecto teve na escolha de Portugal dos itens opcionais do Protocolo de Quioto “Gestão de Pastagens” e “Gestão de Terras Aráveis”, possibilitando o recurso aos apoios dados pelo Programa de Desenvolvimento Rural de Portugal para a sementeira directa e as pastagens permanentes semeadas biodiversas e ricas em leguminosas e possibilitando (em desenvolvimento pelo Extensity) que agricultores portugueses que usem estas técnicas recebam pagamentos do Fundo Português de Carbono, um instrumento do governo português para assegurar o cumprimento do Protocolo de Quioto. Refiro também que o objectivo inicial do projecto de juntar 50 explorações foi ultrapassado com o número actual de 86 (ainda em crescimento), abarcando uma área total de cerca de 70.000 hectares. O universo final de explorações aderentes incluiu actividades de vários tipos e com vários níveis de sustentabilidade – numa abordagem baseada na melhoria contínua. Por outro lado, os cálculos realizados para avaliar produtos ou serviços das explorações do projecto, com base na ACV, permitiram obter uma base de dados de impactes ambientais de produtos e actividades agrícolas em Portugal inexistente até então e cujos resultados poderão ser usados em futuros estudos científicos.
Câmaras Verdes – Quais as perspectivas futuras para o Projecto?
Tiago Domingos – Os benefícios do projecto encontram-se em expansão, por exemplo através da concretização de novos projectos envolvendo parceiros do projecto e outras entidades, implementando os objectivos do Extensity numa escala regional ou local. Nestes projectos destaca-se, a nível nacional, a candidatura da empresa Terraprima ao Fundo Português de Carbono, baseada no sistemas das pastagens biodiversas, e a nível local, o projecto “Rural Value”, em parceria com a LPN – Liga para a Protecção da Natureza e o INRB – Instituto Nacional dos Recursos Biológicos, apoiado financeiramente pela Câmara Municipal de Castro Verde, a ser aplicado no Campo Branco (Baixo Alentejo).



