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Recifes artificiais – Nova tecnologia para obras costeiras multi-funcionais

Entrevista a Pedro Bicudo, Professor no Instituto Superior Técnico - A protecção costeira é uma questão que muito tem preocupado as entidades responsáveis pela gestão das zonas de costa: o desaparecimento de praias e a destabilização de arribas são alguns dos exemplos que têm despertado o interesse para novas formas de proteger a costa. Em alternativa às obras convencionais, a tecnologia dos recifes artificiais começa a posicionar-se como uma opção viável. Para além desta vantagem, os recifes são também “amigos da biodiversidade” e podem ser pensados para melhorar a prática do surf. Para nos “apresentar” os recifes, convidámos o Professor Pedro Bicudo, especialista em física quântica e tecnologia do surf, e fundador da Secret Wave, uma spin off criada para desenvolver projectos de recifes artificiais preenchendo um vazio técnico que existia neste sector em Portugal.

Câmaras Verdes – O que é um recife artificial e de que forma é que esta estrutura se pode considerar uma obra costeira multi-funcional?

Prof. Pedro Bicudo – Um recife artificial não é mais do que um quebra-mar submerso e, por isso, pode ser classificado como uma obra costeira como sejam os portos, as marinas ou os esporões. No entanto, a evolução tecnológica subjacente ao dimensionamento e construção dos recifes artificiais permite que estas estruturam contribuam para a concretização de vários objectivos, daí a sua multifuncionalidade. Em termos gerais, esses objectivos consistem na protecção da linha de costa (evitando a sua erosão), na preservação da biodiversidade (proporcionando condições para o desenvolvimento de espécies de fauna e flora) e na melhoria das condições para o uso balnear, em particular, a realização de desportos náuticos, como seja, o surf. Aliás, inicialmente, a minha motivação para desenvolver a tecnologia de recifes artificiais tinha como propósito melhorar o tipo de onda existente nalguns locais de forma a permitir a prática simultânea de dois níveis de surf: um mais iniciado e outro profissional. A costa portuguesa apresenta per si condições excepcionais para o surf, justificando-se a introdução de ondas mais competitivas em locais cujas condições naturais não o permitem. Complementarmente, o estudo dos projectos dos recifes, nomeadamente os aspectos relativos ao seu dimensionamento, permitiu verificar que podem ser introduzidas melhorias aos projectos convencionais de obras costeiras de forma a acautelar alguns impactes como seja a erosão das praias e a alteração das ondas para a prática de surf.


Câmaras Verdes – Mas, actualmente, já existe a prática de construção de recifes artificiais em Portugal?

Prof. Pedro Bicudo – Existem já recifes artificiais para a pesca, localizados na costa algarvia, que constituem o maior complexo recifal da Europa deste tipo, com uma área de implantação de 43,5 quilómetros quadrados e uma área de influência de sessenta e sete quilómetros quadrados. Existem também esporões semi-submersos e encurvados para a protecção costeira cuja técnica de construção já se aproxima da aplicada a projectos de recifes artificiais. No entanto, não existem ainda recifes artificiais ou outras obras costeiras que potenciem a prática do surf, existindo também pouco exemplos ao nível mundial.

Câmaras Verdes – Relativamente à questão da protecção costeira, os recifes constituem uma alternativa aos convencionais esporões?

Prof. Pedro Bicudo – As obras costeiras actuais, mesmo quando são construídas com o fim de proteger a costa, em alguns caso podem aumentar a perda de sedimentos (areia) para o mar. Com os recifes artificiais, o que se pretende é criar um salto tecnológico ao nível das obras costeiras de forma a alcançar três benefícios: protecção costeira, desenvolvimento da fauna e flora e melhoria das condições para a prática do surf. Existem vários exemplos ao longo da costa portuguesa em como os esporões, construídos para proteger a costa da ondulação e para atenuar a deriva (corrente paralela à costa quer transporta sedimentos), produziram o efeito contrário. Na prática, os esporões localizam as correntes de retorno e, por vezes, até as amplificam. Este fenómeno transporta os sedimentos da terra para o mar. Para contrariar este problema, existem diferentes técnicas de adaptação dos esporões embora todas elas com inconvenientes ou para os banhistas ou para os outros utilizadores da zona balnear. A construção de um recife artificial constitui uma alternativa mais viável pois a ondulação rebenta sobre o recife e não sobre a zona de praia. Por sua vez, as correntes criadas pela rebentação mantêm-se afastadas da linha de costa. Existe ainda o efeito tômbola provocado pela presença do recife que faz com que os sedimentos se acumulem na zona protegida por esta estrutura (ou seja, a praia).

Câmaras Verdes – Referiu há pouco a necessidade dos projectos das obras costeiras considerarem a potencial afectação do uso balnear, nomeadamente, a prática do surf. De que forma é que este objectivo pode ser alcançado?

Prof. Pedro Bicudo – A implantação de uma obra costeira implica que possam vir a ser alteradas as condições de ondulação pelo que é logo desde o dimensionamento da estrutura que se tem que verificar quais as alterações induzidas. Presentemente, já é possível, utilizando modelos numéricos e físicos, prever como um determinado projecto irá alterar os parâmetros que quantificam a qualidade de uma onda para a prática do surf. Depois, também ao nível geral do enquadramento do projecto em termos ambientais e sócio-económicos, é importante avaliar a importância do uso balnear no local de implantação e aqui insere-se o estudo da importância da prática do surf naquela zona de costa. Em grande parte das zonas balneares da nossa costa, este seria um impacte bastante negativo quer ao nível social quer económico: a indústria do surf já representa um potencial de desenvolvimento significativo no nosso País. Desde há 30 anos que assistimos a um crescimento exponencial da prática do surf, que tem motivado a disseminação deste desporto pelas camadas mais jovens e a perspectiva é que se continue a verificar este aumento de interesse, pois a nossa localização geográfica é excelente para que o surf seja ainda mais explorado e rentabilizado. Por tudo isto, era importante que sempre que se dimensiona uma obra costeira se tenha em consideração estes aspectos técnicos da protecção da costa mas também a potencial afectação da utilização balnear e de desportos náuticos.

Câmaras Verdes – Para quando o primeiro recife artificial para a prática de surf em Portugal?

Prof. Pedro Bicudo – Está, neste momento, em fase de projecto, um recife artificial para o surf a construir num local entre São Pedro do Estoril e São João do Estoril. Trata-se de um projecto liderado pela Câmara Municipal de Cascais, sob o pelouro do Vice-Presidente Dr. Carlos Carreiras. Os estudos tecnológicos são da autoria do Instituto Superior Técnico, do Laboratório Nacional de Engenharia Civil e da Faculdade de Ciências de Lisboa. Para além da melhoria da prática do surf, espera-se também com este projecto potenciar a biodiversidade piscícola no local e assegurar a protecção da arriba.

 


Actualizado em ( Quarta, 15 Abril 2009 22:03 )
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